15 novembro 2011

Farpas com afeto

Careta, eu? Jamais! Não acredito mais em contos de fadas não! Essa coisa de príncipe salvando a princesa com um beijo é demais para mim. Como se um beijo que a fizesse acordar mudasse tudo, coitados! Acredito no poder da aliança no dedo, no poder da cumplicidade construída dia a dia, no poder do jogo de cintura para lidar com as diferenças, acredito no santo telefone celular que ajuda a todos com aquelas mensagens nos momentos de distância, e no poder dessas acredito muito, hein!?
E pra não dizerem que sou má, acredito no poder do beijo sim, mas não esse que acorda as princesas uma vez ao longo do conto pra nos salvar de um final triste, acredito no beijo de bom dia durante todas as manhãs, no beijo de boa noite antes de dormir, no beijo terno nos momentos de carinho ao longo da tarde e dos beijos famintos das noites de insônia.
Careta, eu? Por acreditar que o amor ainda existe e se sustenta mesmo com a mãozinha eficaz e destrutiva da rotina? Não, simplesmente acredito que caretice é esperar por um amor a primeira vista que me arrebatará para todo sempre. Aliás, que me desculpem os românticos platônicos, mas amor à primeira vista? Ah sim, claro... amor ao corpo malhado ou à bunda bonita da pessoa desconhecida que por esses atributos lhe dará mais condições de, mesmo sendo irritante, sem papo, sem inteligência ou coisas em comum, fazer existir algum motivo pra você se manter ali.
Não sou careta, sou até bem moderninha! Uso celular, telefone, e-mail, msn, facebook e ainda tenho tempo de manter uma relação existente (nada contra aos relacionamentos virtuais, okay? É claro que não há nada de tão ruim e surreal assim em não poder beijar, tocar ou andar de mãos dadas pela rua com quem supostamente namoramos, não é?).
Careta não, acho que não sou. Careta é acreditar em contos de fadas a vida toda, em relacionamentos ideais. É achar que brigas e lágrimas não fazem parte de um relacionamento saudável. Careta é passar boa parte da vida esperando encontrar o par perfeito pra depois fazer do casamento um contrato, que hoje em dia até prazo de validade tem, aonde o que importa é se haverá divisão dos bens ou não. Ah, meus queridos, que caretice, hein!?

Camila Oaquim

25 outubro 2011

Hoje

Ontem, quando ia levantar o sono me agarrou.
Ontem, quando eu ia falar minha voz sumiu.
Ontem, quando ia sorrir, chorei,
Quando ia chorar me segurei.

Ontem, quando ia te abraçar temi,
Quando ia confessar tremi.
Amanhã? Não sei... Mal saí de ontem!
Que medo, meu bem, que medo.

Temo ser simplesmente o que não fui ontem.
Temo desaparecer no amanhã que não alcanço.
Temo perder você, assim, entre ontem e amanhã.

Camila Oaquim

20 agosto 2011

Bossa do adeus

Nossa cama quebrou,
nosso gato fugiu,
a alegria partiu, não vi mais.

A parede rachou,
a aliança caiu,
a TV repetiu coisas de um tempo atrás.

As promessas, cadê?
os sorrisos, os livros
e o abraço apertado, nem sei onde estão.

Os olhares querendo
e o corpo compreendendo...
tanto tempo atrás, nem sei mais.

A rotina nasceu,
a briga se estendeu,
estou partindo agora, até mais.

Camila Oaquim

17 julho 2011

Meu Carinho

Hoje e daqui em diante quero mil beijos e muito carinho, quero a mão do meu benzinho afagando o rosto meu. Quero os olhares mais apaixonados e o desprezo mais ousado à quem não gosta da nossa felicidade. Não, não me importo com o que vão achar, não, eu não me importo se você for chorar, meu carinho, meu amor, não me importo se depois de tudo eu conseguir lhe arrancar o sorriso mais lindo, o beijo mais apaixonado, o silêncio mais esclarecedor e a única verdade que realmente importa: o nosso amor. E deixe que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá que enquanto isso eu grito pro mundo todo que você é: a minha flor, o meu bebê, o meu carinho, o meu bem-querer! Você, amor, é tudo que eu preciso pra ser feliz e eu sou feliz. E se acham que sou louca, e se acham anormal, e se acham que vou ou que vamos nos abalar com olhar torto ou questionador se enganam, e isso pouco me importa. É hoje, amor, o dia depois de ontem e antes de amanhã, o dia que vou tentar lhe mostrar mais uma vez que o que me importa, a única coisa que me importa, é você comigo.

Camila Oaquim

06 julho 2011

A casa, o futuro e nós

Eu e você, colo de mãe.
Eu e você, mão de amigo.
Eu e você, tudo que não sei dizer.

Fadiga incontrolável,
mal irremediável,
prazer tolo do amor preso a nós.

Abraço apertado,
peito aberto e desarmado,
surra tomada de queixo em pé.

Em pé, andando em frente.
Se atrás vem gente? Não sei!
Em pé e seguindo o destino
incansavelmente até onde der.

E pros que não sabem: dará sempre.

Camila Oaquim

30 junho 2011

Singular em Plural

Eu era nós, de laço forte e apertado, nós, de olhos abertos e braços dados.
Eu era aquilo que não se sabe, que não se decifra. Eu era tudo, tão pouco!
E eu me dei, emprestei, magoei. Eu sofri, calei, sorri.
Os nós afrouxavam, os nós se apertavam, a corda esgarçava e nós, lá, em nós.
E nós procurávamos, nós nos achamos, nos perdemos, e livres nos prendemos.
Na imensidão de opções a resposta era única, dentre nós só nós restavam.
E quem vai dizer que só restam males, ares ruins.
E quem vai dizer que ser preso não é opção, missão do sim.
Eu sou laço, não tão forte, não tão frouxo.
Mas sem preocupações, por favor. Caso ache que vou soltar, volta, voltamos, nós. Somos assim, só assim, e ninguém precisa saber diferenciar, ninguém além de nós,
porque em pessoa ou em amarras nos enquadramos e pronto, isso basta.
Eu sou aquilo que já sabemos, incógnita. Quase nada, tanto!

Camila Oaquim

26 junho 2011

Hoje

Acordei mais eu hoje, eu acho. Algum daqueles dias que você não se contenta com a parte que lhe cabe no latifúndio e quer mais, quer ir além. No meu caso, fui à mim. Que saudade! Não tinha percebido quanta falta fazia acordar e ver o Sol invadindo o quarto, entrando pela frecha do meu cobertor e iluminando a minha vida. Nem havia percebido o meu humor que dia após dia se esvaia e que, por não perceber, não tinha como recuperar.
Mas era uma pedra, só mais uma dessas que ficam no meio do caminho pra que tropecemos mil vezes até fazer do tropeço algo comum ao nosso andar. Era uma pedra que hoje sumiu. Não sei se pra sempre, se por um bom tempo ou só por alguns dias, tanto faz.
Projeções sobre o futuro, nosso eterno projeto, hoje não me cabem, não mesmo. Se eu tropeçar amanhã, paciência, oras. Hoje, só por hoje, não vou chorar nem lamentar, me preocupar ou temer. Hoje, só hoje meu tempo será quando. Até quando não for mais. Quando? Não sei. Quando!

Camila Oaquim

29 maio 2011

Cria

Tira minha dignidade, meu pudor,
as roupas do corpo, o corpo de mim.
Tira minha voz e minha verdade,
prenda minhas mãos, fica em mim.
Rouba meus medos, joga fora,
com minhas respostas desaforadas.
Rouba meus beijos e súplicas,
promete que não vai embora.
Me tira a moral, me joga no chão,
me puxa, me prende, me solta.
Brinca comigo, fica comigo,
Faz eu me sentir única outra vez.
Tira minha opção de partir,
diz que sou sua e que não posso ir.
Me faz esquecer que sou racional,
me prende em sua vida como animal.
Pra sempre, pra sempre, amor,
me cria, me cuida, pra sempre, amor.

Camila Oaquim

A pedra, a embarcação

Desmancho-me em rio, amor
Em sal de pranto desfaleço.
Insistes que não me compadeço,
perceberás só quando me for?

Forço-me em ser maleável,
Engulo choro, engulo tristeza,
esses sentimentos por natureza
mas o medo é inapagável.

A ponta da faca em minha mão.
O cansaço das reclamações,
as mais mil e uma citações
e, enfim a faca vai ao coração.

Se está tudo errado? não sei.
O tempo passa mas tudo volta,
pergunto-me, onde mesmo errei?

Em mim navegam tantas frustrações
nesse meu rio-pranto de tantas lágrimas.
Talvez eu atravanque outras embarcações.

Camila Oaquim

24 abril 2011

Amor

O que faço?
Adio o ponto com vírgulas.
Cresço frases com adjetivos,
pronomes, verbos.
Mais substantivos, por favor!

O que faço?
Escrevo compulsivamente.
Mudo rumos, prosas,
tudo pra não declarar,
não aceitar, acabar no fim.

O que faço?
Derramar tinta dos olhos
nas letras sofridas do papel.
Começar do fim
a história que se enrolou.

Eu faço!
Uso o meu mais fino idioma.
Escrevo com mais lindas palavras,
uso ponto e vírgula, reticencias,
virgulas, mas nunca ponto final.

Camila Oaquim

07 abril 2011

Antagonia

Estamos a tanto tempo juntos que mudamos e, incrível, esquecemos de nos reapresentar. Prazer, pode me chamar de escada. Sim, escada. Consistente, forte, firme. Pessoa silenciosa que só responde aos seus sons emitidos nas subidas. É assim, o tempo todo sirvo pra que você se escore, pra que mesmo sem querer você suba nesse movimento ritmado e cansativo, subindo em mim, pisando em mim e me vendo, às vezes, somente como passagem pra onde quer chegar. Reclama do esforço, do peso do seu corpo sem perceber que me aguento e lhe carrego sem reclamar. Sentada em mim chora suas mágoas, em pé sobre mim comemora alegrias, às vezes me segura, às vezes me olha e fala sem recíproca as mágoas da vida. É realmente assim, seus deveres, suas vontades, seus atos e meu silêncio, e meu carregar calado e sofrido. Espero sim, meu bem, carregar ao máximo as suas vontades, fazer com que você se eleve e sorria. Espero sim, amor, ter força pra continuar sendo pisado na ferida. Camila Oaquim

01 abril 2011

Linguística

-“Ele é um bom partido, querida.” Dizia a mãe aflita ao ver a filha rejeitar o rapaz que mais lhe agradava no meio desse leque de opções encontradas hoje em dia, principalmente em cidades grandes.
Partiam-se as opiniões, a mãe nervosa tomava partido da boa causa, o futuro bom da filha em jogo. A menina, por outro lado, partidava-se ao próprio querer que, depois de ter o coração partido, dizia não querer mais ninguém.
Constante e precisa no discurso, a menina sem nem serem necessários muitos pensamentos respondia –“se, então, ele é bom partido, que parta para alguém do partido dos carentes, não preciso de ninguém”, e como nas dores do parto a mãe sofreu, em silêncio desta vez, esperando que partisse da filha uma postura sensata.

Camila Oaquim

25 março 2011

Mariana

Dedico a ti a forma mais cuidadosa de amar alguém. Relembro que ter cuidado não é anular o erro. Amar é querer ter perto alguém. Em grande parte das pessoas é querer viver junto, dividir coisas poucas e cotidianas como um almoço ou uma tarde, fazer de coisas inéditas ao mundo comuns ao amado, como segredos saindo da boca com naturalidade e confiança.
Amar é essa vontade descabida de ter o outro, de saber do outro, de controlar o outro durante as 24 horas do dia (não por mal, é claro). É querer tanta proximidade a ponto de podermos caracterizar pela vontade de dois serem um só. É isso, meu amor, dedico a ti essa minha vontade descabida de estarmos tão perto e felizes a ponto de ser uma só pessoa.
Amor cuidadoso, sim. Cuidadoso pelo fato de ser tão grande a ponto de me tirar a razão às vezes fazendo o ciúme não me deixar pensar. Eu cuido, cuido ao máximo pra que possa continuar dando meus beijos e abraços e recebendo teus sorrisos e promessas de amor. Cuido pra que palavras não sejam apenas ditas, que verdades não sejam apenas jogadas, que “pra sempre” não seja apenas coisa abstrata.
Este amor é assim, incontrolável, forte, cultivado. É criação, dia a dia, de duas vidas em um rumo só. É texto de várias frases (e um tema), frase de vários verbos (similares), palavra de várias interpretações (mas significação única). E neste amor, de tantos prós e contras, de tanto medos e lágrimas, certezas e risos, que encontro todos os dias a razão de estar aqui. Não sei se sabes, nem sei se há como explicar, mas são mil e uma razões que levam a um único ponto, à ti.

Camila Oaquim

21 março 2011

Japão

Sentindo-me Deus, criei um mundo só meu
Aonde tecnologias avançadas destacavam-se,
Aonde o tempo era sempre pouco e útil.
Fiz as maiores descobertas, reconheço.
De humildade não preciso, me garanto, eu sei.
Ninguém podia me parar, não iriam me deter
E quem fui ninguém chegaria a ser.
Subestimei o mundo, confesso,
Agora, que tristeza, voltei à partida.
Perdi tudo que construí, matei os meus filhos,
Não há mais criação brilhante que nos salve.
Agora a natureza tirou-me o poder,
Tirou-me a dignidade e a independência.
Vejo os meus com fome sem pra onde ir,
Crianças medrosas nos únicos colos que restam
E repenso, aonde estava que não nos salvei,
Que não repensei, que não protegi?
O que me resta é solidariedade dos outros
E curioso, esta eu nunca soube produzir.
Aos poucos espero reconstruir tudo,
Mas por tudo que vivi agora, tenho certeza,
O principal é reconstruir eu mesmo,
Não em riqueza, em pensamentos
Afinal, descobri que não sou nada.

Camila Oaquim

20 março 2011

Projetando importâncias

É constituída pelas grandes escolhas aos mínimos detalhes essa projeção a qual denominamos futuro. As pessoas se preocupam em projetos grandes, em realizações de sonhos e em lutas desesperadas e desfreadas àquilo cujo merecimento, reconhecimento e remuneração serão satisfatórias. Ando perguntando-me –satisfatórias à quem?
Quanto mais criticamos a desigualdade do capitalismo, a crueldade e impunidade do mesmo, mais fortalecemos a ele. Satisfazemo-nos em nos gabar por aquisições, por cargos, pelo dinheiro que ganhamos. Colocamos isso como meta e base de tudo, colocamos tanto e tão discretamente essa posição vencedora à nossa luxuria que se pararmos pra pensar desde quando isso é nossa meta não saberemos.
Vem da criação –talvez- ou quem sabe dos primórdios da nossa sociedade aonde dinheiro é sinônimo de felicidade. E como de costume pais ausentes para manter suas famílias em boa condição financeira usam como boa e velha desculpa o “se não estou sempre aqui é para manter todos nós”, agora mães engajadas ao trabalho e à melhor perspectiva de vida tanto como a luta pela igualdade dos sexos também se encontram ausentes àquilo que chamamos família.
A questão em si não é a crítica ao capitalismo ou às pessoas querendo ganhar dinheiro, essa crítica, meus caros, vai àqueles que esquecem que o “hoje” ainda existe, assim como a família e as pessoas a quem amamos. Sim, devemos visar um futuro cujo dinheiro não falte, aonde possamos esbanjar conquistas e outras dessas coisas que hoje valem mais do que quem somos – e aí entra outra questão já que, pelo menos pra mim, quem somos não se resume àquilo que temos- mas não podemos esquecer que perder o presente visando um futuro não é algo que deva ser nossa meta exclusiva já que ninguém tem a certeza de que amanhã vá chegar.
Na vida, creio eu, temos tempo pra tudo. Essa história de correr contra o tempo é balela daqueles que tem medo de não ter tempo pra viver tudo o que querem sem perceber que estão perdendo o tempo todo correndo sem alcançar. E nessa de correr, acaba-se idealizando tanto o que se quer que por bobeiras, que só enxergadas depois, as pessoas perdem o que mais pode importar futuramente. Alguns dizem que é possível ser feliz sozinho, já eu –pode até ser infantilidade- prefiro trilhar o caminho mais longo acompanhada do que correr sozinha e depois só ter a lembrança de pessoas que passaram por mim.
Os detalhes da escolha estão justamente em como fazemos pra realiza-las. Satisfazer aos outros não é algo que me faça sempre feliz. Ser feliz, isso sim é prioridade. Prefiro a presença do que a quantidade, o abraço apertado e a conversa boba no lugar do nome ou do salário. É tudo questão de tempo, sim, tempo para as prioridades, tempo para satisfazer a alguém ou a nós mesmos sem deixarmos de lembrar o que realmente é importante. São detalhes, meu caro, são só detalhes. E então, qual a sua prioridade?

Camila Oaquim

14 fevereiro 2011

Ela

Fiz o jantar, está posto à mesa,
fiz teu doce predileto,
forrei a cama com aquele cobertor,
deixei no rádio nossa música de amor,
cochilei te esperando no sofá
e sonhei contigo me abraçando forte,
acordei com medo da hora passar
e arrumando o cabelo com pressa,
me perfumando pra ti, amor,
vi a porta abrir e teu cansaço me matar,
vi teus pés descalços no chão
procurando o chinelo de sempre,
e o chuveiro de sempre,
Tua boca com as falas de todo dia,
nessa nossa monotonia...
achando que o diferente mudaria algo,
salvaria algo do que virou rotina,
dessa mania de amor virar costume,
acostumando-me em ser ela,
somente ela, a mesma de sempre,
a mulher que dorme ao teu lado,
a mãe dos teus filhos, a boa esposa,
ela, que já não sabe mais,
que já não lembra mais,
que nem pensa na hipótese de saber de novo,
um dia, algum dia, meus Deus,
como é ser uma mulher plenamente amada.

Camila Oaquim

10 fevereiro 2011

O Furto

Ele gritava “sou comunista” e reclamava e sofria e corria do mundo que aos poucos comprava o silenciar da sua boca. Ele não devia mas cobravam-no, engatavam a marcha que agia energicamente quanto mais dinheiro o mandante tivesse. O sonho dos seus filhos era ir a Disney, sua mulher ansiava por mais e ele encontrava-se em mais um dos paradigmas desses em que a vida nos coloca. Um dia seus ideais foram vendidos, sua casa ampliada, seus filhos à Disney e ele gritou: - “viva ao capitalismo”. Viva ao capitalismo, desigual e impiedoso, viva...

Camila Oaquim

09 fevereiro 2011

O desflexionar dos joelhos

Chama o pai, chama,
reza a prece e discursa a fé.
Vai homem, vai mulher...
grita que o mundo escuta e destemido segura tudo.
Carrega a cruz nas costas da sua monotonia,
diz que a vida é difícil e grita ao mundo pra se escutar.
Chama que o eco volta,
bate que o tapa vem,
vem meu bem, clama o invisível,
arruma parede pra se apoiar,
arruma ombro pra se consolar,
arruma segurança pro que não se pode assegurar.
Vai, chama seu pai...
chama que sou órfã e me responsabilizo por meus atos,
chama se precisa de alguém pra proteger seu passo,
chama e tem fé por mim que só tenho fé em mim.

Camila Oaquim

Da queda ao gelo

Sabe-se que sentiu mais do que devia,
que o carinho afogou o cérebro no sangue
que corria peito a fora, escorria, sorria,
sangue pisado que secou ao Sol, só.

Ajoelhando em pedras pontiagudas
vendo o fim, correndo rumo à miragem,
compreendendo e sentindo facadas,
solitário, sentiu a dor de ficar, só.

Sabe-se que a lágrima seca sempre,
que sorrir de novo é possível sim,
pulou do abismo e morreu feito gente
que não aguenta o fardo que leva, só.

Culpando o mundo pela injustiça
perguntando quem não viu,
julgando quem não sentiu,
sentindo a dor de um mundo frio...

Um mundo frio, um mundo frio...
caindo mais uma vez como anjo sem asa
como pessoa desamada chegando ao solo,
congelando, congelan... conge... congelou!

Camila Oaquim

08 fevereiro 2011

Do escrito à caneta

Inevitavelmente é assim, amar alguém é mais do que querer fazer uma história de final feliz, é lembrar que além do sentimento, da reciprocidade e dos sonhos jogados ao topo da escada na qual todos sonham terminar de subir, alcançando realizações, amar é saber que não se escreve um livro inteiro nem se lê de todo este. O mistério desse sentimento esta definitivamente na descoberta de que devemos basear os atos no fato de que amar é aceitar carregar nas costas o peso da escrita que não foi nossa e tentar terminar ao melhor modo que nos cabe à leitura. O que vêm escrito não há borracha que apague nem borrão e rabisco que faça ilegível, o que escrevemos pode não mudar o que já foi, mas o que importa realmente é sempre a última frase, então, nesta minha última deixo dito que, seja qual for a história, podemos refazer frases e distorcer coisas de modo que o que antes foi escrito pese menos pra que sejamos mais felizes com o que vivemos e com o que passou, basta querer que com carinho e por amor tudo se faz e se supera.

Camila Oaquim

28 janeiro 2011

Variabilidade

Una lengua nadie más es do que la expresión de una forma de vida. Hablar otro idioma es el mismo que su escape de la realidad a otra, en momentos en que necesita para ventilar o reaccionar de una manera neutral, parece más fácil. Luego yo escribo en español, y señaló que otra manera de decir lo que me olvido de lo que siento. A partir de ahora yo voy pensar en español, esa es la idea. Quién sabe si me expresar desa manera lo que yo tengo a decir puede ser menos nocivo o encendedor para mis sentidos. Las lágrimas se secan y el polvo cubre la contusión, el pesamentos, bueno, estos son todavía, pero no estoy dispuesto a cambiar? Asumo que el error está en mis manos y cambiar me los puede cambiar. Pensar en español, dejando a lo portugues a los momentos más relajantes, si hay alguna forma que estoy buscando, así que no hay nada oculto que no se puede encontrar. El cambio, tratando, estoy tratando. Una hora llegaré al éxito.

Camila Oaquim

Do tempo

Então vais me queixar do passado como fardo pesado que levas e ouvirei muda como faca cravada no peito. Gritarei ao mundo, em silêncio, a minha dor, chorarás em meu colo a mágoa que agora me magoou. Pensarei em porquês pra tanta apreensão, meus pensamentos voaram aos céus em explosão de imaginação e de raivas cheias de repúdio pelo que não sei e nem quero saber, grata. Falarás compulsivamente olhando meus olhos entregues, chorarei descontente pela não plenitude da intensão de me curar a ferida com as palavras. Perguntarei a mim mesma o porque de estar aqui, julgarei tudo e vou temer mais uma vez o que quero saber mas não quero ouvir. Levarás tapas de minhas palavras ríspidas, levarei socos e pontapés dessa atual situação. Continuaremos aqui, apanhando até achar solução.

Camila Oaquim

Das dores

Dói em mim só o fato de pensar em outras mãos sobre o que é meu. A cólera me sobe e a raiva transborda por toda a minha essência. Entre explosão de choro e agressividade, a repulsa de nós me possui. Penso em sumir, penso em me manter afastada, em não fazer mais nada do que antes fiz. Penso em apagar a memória e tento mais do que tudo colocar pra fora esse desespero que quanto mais demonstro mais me consome, que quanto mais calo mais me sufoca. Mas entre salvos e feridos continuo aqui, ainda que morrendo.

Camila Oaquim

27 janeiro 2011

Quando me chamas

Quando me chamas não sei se me queres mais perto ou se devo parar,
e quando me matas com os olhos devoro-te toda, minimamente.
Quando te mostras de todo me curvo a teu corpo pra te apreciar,
quando me olhas calada suspiro do amor descabido alojado em mim.

Enfeites na prateleira são detalhes tão esquecidos de todos,
é tanta bobeira, é tanta besteira, o que nos restou perguntamos a nós,
e o que nos restou, amor, foram nossos amores unidos a sós.

Marcas do tempo invadem o corpo cansado querendo ficar,
nino meu sono em teu colo e desmancho-me em pranto silencioso.
Às brigas mais irritadas o medo acanhado de nos ausentar,
os dias que nos engrandeceram lentamente fizeram-nos a soma.
Quando te grito nas brigas por verdades inteiras a me matar
não sei se corro à teus braços ou se dou meia volta ao rumo de casa.
Quando, nessa intensidade de coisas, beijo-te com pressa e sem soltar
mil anjos perdoam-me a raiva que tive de ti e de mim aos teus pés.

Zodíaco e astros, planetas em órbitas e tudo o que acreditas,
não interferem em nada, para mim, pra que as coisas fiquem assim,
tu me amando e eu te implorando, tu do ladinho de mim.

Camila Oaquim

Trovador de sonhos

Perguntei ao trovador de sonhos como ele os prendia e soltava em forma de rima, ao contrario de minhas tentativas mal feitas em que tento prender a melhor parte dos sonhos em mim, noite e dia. Respondeu-me, no instante e atento, que os sonhos não se fazem submissos à nós, não prendemo-los nem achamo-los. Que eles nos acham e nos prendem com amarras tão fortes a ponto de precisarmos fazer deles reais.
Com mil e uma faces em sua cara pintada mostrou-me as palavras ariscas que espantavam de mim essa mania “encriançada” de querer prosear com a vida de acordo com esse querer involuntário. Fez seus versos e rimas, poesias de amor e de escárnio, culpou o bem-querer das alegrias e o homem das tristezas, fazendo uma sinfonia sinestésica sem som cheia de aliterações em que pude ouvir com os olhos e mãos, sentir então.
-Aonde, então, aonde foi, trovador, que aprendeu a ser feliz?- Perguntei-lhe de modo a não entender. Ora, pois como é que um homem igual a todos dribla a vida de forma tão talentosa sem levar uma rasteira e cair de forma dolorosa?
Homem esperto é assim, faz a arte e não explica a magia. Não entendi na hora mas depois dei-lhe a razão. Disse-me sério e com cara de quem já muito amargurado foi que tudo o que passamos de ruim nos faz pessoas melhores, basta querermos. Deixou a máscara de lado e de uma lágrima dele fez-se meu pranto. O desespero me habitava, se homem forte e risonho chorava agora eu via mais e mais motivos pra poder chorar também.
Depois de ziguezaguear nesta prosa dei por conta da bobeira que fiz. Uma vida é uma vida e dela se faz dependente, mas só. Não adianta querer saber a razão da força alheia se não encontrar a minha. Meus sonhos têm de ser tão meus a ponto de ninguém conseguir se sentir tão dono deles quanto eu, já que de mim se apossaram. Se não aprendi a rimar bonito era porque não havia de ser assim o caminho à minha felicidade. Se precisar eu choro, me desespero e jogo a palavra ao vento, cada um sabe a magia que carrega em si e olha, eu aprendi, não precisa ser nenhum trovador pra poder ser feliz.

Camila Oaquim