28 janeiro 2011

Das dores

Dói em mim só o fato de pensar em outras mãos sobre o que é meu. A cólera me sobe e a raiva transborda por toda a minha essência. Entre explosão de choro e agressividade, a repulsa de nós me possui. Penso em sumir, penso em me manter afastada, em não fazer mais nada do que antes fiz. Penso em apagar a memória e tento mais do que tudo colocar pra fora esse desespero que quanto mais demonstro mais me consome, que quanto mais calo mais me sufoca. Mas entre salvos e feridos continuo aqui, ainda que morrendo.

Camila Oaquim

27 janeiro 2011

Quando me chamas

Quando me chamas não sei se me queres mais perto ou se devo parar,
e quando me matas com os olhos devoro-te toda, minimamente.
Quando te mostras de todo me curvo a teu corpo pra te apreciar,
quando me olhas calada suspiro do amor descabido alojado em mim.

Enfeites na prateleira são detalhes tão esquecidos de todos,
é tanta bobeira, é tanta besteira, o que nos restou perguntamos a nós,
e o que nos restou, amor, foram nossos amores unidos a sós.

Marcas do tempo invadem o corpo cansado querendo ficar,
nino meu sono em teu colo e desmancho-me em pranto silencioso.
Às brigas mais irritadas o medo acanhado de nos ausentar,
os dias que nos engrandeceram lentamente fizeram-nos a soma.

Quando te grito nas brigas por verdades inteiras a me matar
não sei se corro à teus braços ou se dou meia volta ao rumo de casa.
Quando, nessa intensidade de coisas, beijo-te com pressa e sem soltar
mil anjos perdoam-me a raiva que tive de ti e de mim aos teus pés.

Zodíaco e astros, planetas em órbitas e tudo o que acreditas,
não interferem em nada, para mim, pra que as coisas fiquem assim,
tu me amando e eu te implorando, tu do ladinho de mim.

Camila Oaquim

Trovador de sonhos

Perguntei ao trovador de sonhos como ele os prendia e soltava em forma de rima, ao contrario de minhas tentativas mal feitas em que tento prender a melhor parte dos sonhos em mim, noite e dia. Respondeu-me, no instante e atento, que os sonhos não se fazem submissos à nós, não prendemo-los nem achamo-los. Que eles nos acham e nos prendem com amarras tão fortes a ponto de precisarmos fazer deles reais.
Com mil e uma faces em sua cara pintada mostrou-me as palavras ariscas que espantavam de mim essa mania “encriançada” de querer prosear com a vida de acordo com esse querer involuntário. Fez seus versos e rimas, poesias de amor e de escárnio, culpou o bem-querer das alegrias e o homem das tristezas, fazendo uma sinfonia sinestésica sem som cheia de aliterações em que pude ouvir com os olhos e mãos, sentir então.
-Aonde, então, aonde foi, trovador, que aprendeu a ser feliz?- Perguntei-lhe de modo a não entender. Ora, pois como é que um homem igual a todos dribla a vida de forma tão talentosa sem levar uma rasteira e cair de forma dolorosa?
Homem esperto é assim, faz a arte e não explica a magia. Não entendi na hora mas depois dei-lhe a razão. Disse-me sério e com cara de quem já muito amargurado foi que tudo o que passamos de ruim nos faz pessoas melhores, basta querermos. Deixou a máscara de lado e de uma lágrima dele fez-se meu pranto. O desespero me habitava, se homem forte e risonho chorava agora eu via mais e mais motivos pra poder chorar também.
Depois de ziguezaguear nesta prosa dei por conta da bobeira que fiz. Uma vida é uma vida e dela se faz dependente, mas só. Não adianta querer saber a razão da força alheia se não encontrar a minha. Meus sonhos têm de ser tão meus a ponto de ninguém conseguir se sentir tão dono deles quanto eu, já que de mim se apossaram. Se não aprendi a rimar bonito era porque não havia de ser assim o caminho à minha felicidade. Se precisar eu choro, me desespero e jogo a palavra ao vento, cada um sabe a magia que carrega em si e olha, eu aprendi, não precisa ser nenhum trovador pra poder ser feliz.

Camila Oaquim

24 novembro 2010

Caminho

Do espelho na minha mão vi o mundo que ficou pra trás, pessoas tristes e dando tchau, vi tudo o que éramos antes de nos imporem ser quem somos. Crescemos tão rápido, aonde foi parar nossa sensatez? Estamos tão cheios de tarefas a cumprir, tão preocupados com o que vai acontecer, ninguém mais reparou em quem ficou pelo caminho. Já não digo mais e nem penso no que dizer, ninguém vai estar aqui pra ouvir, meus irmãos se perderam por algum lugar que não sei chegar, odiei tanto o que estava por vir e agora vivo assim, é tudo tão indiferente, o que foi mesmo que aconteceu? É como se estivéssemos em um poço escuro, nós gritamos tanto, choramos tanto, nós tentamos subir de todos os modos até perdermos nossas unhas, já não temos voz, mas quase não se usa hoje em dia mesmo, o que foi que aconteceu? Procurei tanto a nossa essência por aí, é difícil dizer isso mas acho que desaparecemos, estou me sentindo tão solitário, trilhei caminhos de pedra em forma de círculos o tempo todo, de onde mesmo que começamos? Talvez se procurássemos todos juntos, quem sabe se nos déssemos as mãos e brincássemos de novo ou infantilizássemos as nossas mentes nós não seriamos melhores, será que poderíamos ficar assim por um segundo? Falaram tanto do tempo como vilão das nossas vidas que nem percebemos que nossos vilões fomos nós mesmos, e agora, pra onde mesmo estamos indo?

Camila Oaquim

04 novembro 2010

Círculo Torto

Enquanto o tempo passa eu fico

mas se me pára, desvio

talvez a graça esteja toda aí,

quem sabe lá, quem sabe aqui.

E no desvio, no tropeço,

no pé cansado e na mão aberta

que o conforto da chegada fica.

Na hipótese e no medo,

no olhar quadrado ao círculo torto

da vida que não pára de rodar,

é aí, é bem aí que o futuro fica.

E ele fica, a vida vai,

o tempo passa, o mundo roda,

o dia nasce e o Sol retorna,

a gente vai? a gente fica?

a gente só vive a vida,

vive a vida, vive a vida.

Vida, a vida, círculo torto

de pontos seguidos.

O tempo não pára…

a gente, como sempre, fica.

Camila Oaquim.