18 outubro 2012

O Adeus


          Enfim juntos. Compramos nossa casa, trocamos alianças e passamos a dividir a mesma cama durante todas as noites. Acordávamos bem cedinho, ele mais do que eu. Enquanto já estava acordado tomando banho eu levantava, fazia nosso café da manhã e entre os mil beijos de bom dia que ele me dava e o café com leite que fazia para ele do jeito que preferia – mais café que leite – ele sorria e dizia que me amava antes de levantar para escovar os dentes e ir para mais um dia de trabalho.
          Depois de sua partida quem ia era eu, tomava meu banho e ia ao trabalho. Também chegava antes dele, então fazia o jantar enquanto via televisão me divertindo com a programação humorística que na verdade só me fazia rir pela constante falta de humor. Quando nem esperava ele abria a porta, sorria, sempre sorria. É fácil escutar a sua voz dizendo “Boa noite, meu amor” se eu forçar um pouco a memória.
          Os dias passaram, passaram os meses, os anos.  Os trabalhos cada vez mais cansativos e cobrando mais de nós. Tão empenhado o meu rapaz, conseguiu um dos melhores cargos da empresa e apesar de cada vez ter menos tempo estava radiante. Indo por outro caminho também disparei no mundo dos negócios, só que agora eu tinha a liberdade de trabalhar grande parte do tempo em casa.
          Cada vez me deixavam mais triste as suas partidas, eram tantas viagens de negócios que ele tinha de fazer, tantas idas e vindas que o nosso simples café da manhã aonde ele me jurava o amor que sentia passou a ser algo extraordinário. Nem me lembro a ultima vez que fiz nosso jantar, não sabia mais a programação da TV. Na época me falaram que tinha uma novela boa, todos estavam assistindo, mas na verdade eu não sabia nem o nome. Estava tão entretida com os meus conflitos, tão obcecada por ter de volta o que éramos antes que nada mais me passava pela cabeça.
        Conversei com ele. Tão grande mas comigo parecia uma criança agarrada à saia da mãe nas conversas sérias. Enquanto dizia que me amava eu retribuía a jura tentando explicar que o problema não era o amor, era como estávamos levando - ou deixando de levar - a nossa vida à dois. Ele prometeu ficar mais, não ir e vir como se não tivesse alguém esperando. Eu acreditei, acreditei sim, até que ele foi uma, duas... quatro vezes em menos de um mês. Presentes não faltavam, telefonemas também não. Mas preferia a vida sacrificada que levávamos antes.
         Lá ia ele mais uma vez, chorei quieta. Ele pareceu sentir também, chorou enquanto dizia que voltava logo e que também sentia muito por tudo isso. Depois do beijo de despedida ele foi. Despedi-me dele, da TV que não via mais, da cozinha que há muito não precisava habitar diariamente e da casa aonde tive e perdi meu grande amor. A aliança deixei na mesa em cima da carta que escrevi dizendo que estava cansada de despedidas, e esse foi o último adeus que tive de dar.

Camila Oaquim

29 setembro 2012

O longo Caminho Até Aqui


Por quantos tropeços caí até aqui
Em quantos nós me enrosquei dentro de ti
Debrucei, chorei, agarrei-me com toda força
Como uma moça sem pudor algum.

Afobei-me em querer tua presença
Tive tua mão aqui na saúde e na doença
Empenhei-me, fui à cozinha, fiz teu café
Como dona de casa, tua mulher!

E aos poucos que fui vendo...
Tão aos poucos entendendo...
Já era tua sem saber, sem crer ou entender.

E aos poucos fui morrendo...
Tão aos poucos renascendo...
Cumplicidade vem do chão e vai crescendo...

E vai crescendo...
E de repente gera frutos, contorna arbustos, vira árvore.
E vai crescendo, enraizando, deixando marcas.

Em todas elas gravei-te em mim
Tuas vindas e idas, teus choros sem fim
Ficou apenas teu riso de satisfeito
Com os erros meus, tua mulher sem defeito.

Camila Oaquim

09 setembro 2012

Metalinguagem? Talvez, Palavra!


 Encontro-me aqui novamente, desta vez tentando tapar aos poucos os diversos buracos causados por minha ausência.  Crescer não é tão divertido quanto aparenta ser enquanto estamos sentados em frente à TV vendo a sessão da tarde esperando incansavelmente para sermos adultos e podermos ser iguais a algum daqueles super-heróis ou então grandes o suficiente para ter uma daquelas paixões avassaladores de finais felizes.
Apaixonei-me, tanto quanto os adultos dos filmes, e de maneira animalesca o impulso por diversas vezes tomou conta de todo o meu ser que, felizmente ou não, parecia a todo instante ter a consciência em forma de coração. Não me arrependo de nada, não vejo motivos para tal desatino (desatino sim, como pode alguém se arrepender de algo pelo que tanto esperou?).
Aconteceu que percebi que o amor não é a única coisa que caracteriza os adultos - tolice infantil- e os deveres, e os medos, e as lágrimas, e a falta de tempo tomaram-me todo o espaço guardado com tanto afeto e mil cuidados para o meu benzinho. Quis largar tudo por inúmeras vezes, várias mãos me foram estendidas, e ombros, palavras confortantes, tudo menos você, meu amor.
Pensei então que teria sido tudo em vão. Quanto tempo perdi nessa longa caminhada, meus Deus! Poucos sabem o quanto foi difícil dar o próximo passo e, com certeza, todos já perderam a conta de quantos próximos passos foram necessários. Mas cheguei finalmente e aqui está você, de braços abertos me esperando. Como pude não perceber sua presença a cada instante? O mais puro amor, a mais sincera amizade, essa nossa paixão com certeza é a história mais linda dentre todos os filmes que vi até hoje. Nosso final? Não sei, adultos se preocupam muito com o futuro. Enquanto isso vivo o presente tatuando diariamente em nossas vidas palavras sinceras do nosso amor.

Voltei, meu bem.
                  Eu voltei!

Camila Oaquim

26 fevereiro 2012

Mulher

Sou mulher. Mulher desde que avistaram-me o ventre.
Sou mulher desde as bonecas ao salto. Do contra também.
Mulher travessa! Das meninices às bolas de futebol,
dos medos do escuro aos segredos mais preciosos.
Mulher com direito a dias de glória e dias de choro na cama.
Coisas de mulher... Não lhe garanto entendimento.
Mas, nos tempos modernos, ando tão mulher que me confundem.
Mulher também trabalha! Mulher também é independente!
Mulher isso, mulher aquilo... Ainda sou mulher, sabia?
Só que mulher na essência. Daquelas que gostam de mimos,
de carinhos, besteiras ao pé do ouvido. Ah, mulher!
Daquelas que choram de felicidade e sorriem mesmo morrendo,
que esperam mesmo que negando por um grande amor,
que se importam com datas significantes, que amam,
que chamam, inflamam de desejo e no ápice de tudo,
sim, que esperam uma aliança como prova de amor.
Mulher que mesmo sabendo que não se prova assim,
se sente provada por carregar tamanho compromisso ao dedo.
Sou mulher, meu bem! Não se esquece!
Minhas memórias, meus dedos e meu corpo esperam que se lembre.

Beijos saudosos, sua mulher!

Camila Oaquim

15 novembro 2011

Farpas com afeto

Careta, eu? Jamais! Não acredito mais em contos de fadas não! Essa coisa de príncipe salvando a princesa com um beijo é demais para mim. Como se um beijo que a fizesse acordar mudasse tudo, coitados! Acredito no poder da aliança no dedo, no poder da cumplicidade construída dia a dia, no poder do jogo de cintura para lidar com as diferenças, acredito no santo telefone celular que ajuda a todos com aquelas mensagens nos momentos de distância, e no poder dessas acredito muito, hein!?
E pra não dizerem que sou má, acredito no poder do beijo sim, mas não esse que acorda as princesas uma vez ao longo do conto pra nos salvar de um final triste, acredito no beijo de bom dia durante todas as manhãs, no beijo de boa noite antes de dormir, no beijo terno nos momentos de carinho ao longo da tarde e dos beijos famintos das noites de insônia.
Careta, eu? Por acreditar que o amor ainda existe e se sustenta mesmo com a mãozinha eficaz e destrutiva da rotina? Não, simplesmente acredito que caretice é esperar por um amor a primeira vista que me arrebatará para todo sempre. Aliás, que me desculpem os românticos platônicos, mas amor à primeira vista? Ah sim, claro... amor ao corpo malhado ou à bunda bonita da pessoa desconhecida que por esses atributos lhe dará mais condições de, mesmo sendo irritante, sem papo, sem inteligência ou coisas em comum, fazer existir algum motivo pra você se manter ali.
Não sou careta, sou até bem moderninha! Uso celular, telefone, e-mail, msn, facebook e ainda tenho tempo de manter uma relação existente (nada contra aos relacionamentos virtuais, okay? É claro que não há nada de tão ruim e surreal assim em não poder beijar, tocar ou andar de mãos dadas pela rua com quem supostamente namoramos, não é?).
Careta não, acho que não sou. Careta é acreditar em contos de fadas a vida toda, em relacionamentos ideais. É achar que brigas e lágrimas não fazem parte de um relacionamento saudável. Careta é passar boa parte da vida esperando encontrar o par perfeito pra depois fazer do casamento um contrato, que hoje em dia até prazo de validade tem, aonde o que importa é se haverá divisão dos bens ou não. Ah, meus queridos, que caretice, hein!?

Camila Oaquim