Enfim juntos. Compramos nossa casa, trocamos alianças e
passamos a dividir a mesma cama durante todas as noites. Acordávamos bem
cedinho, ele mais do que eu. Enquanto já estava acordado tomando banho eu
levantava, fazia nosso café da manhã e entre os mil beijos de bom dia que ele
me dava e o café com leite que fazia para ele do jeito que preferia – mais café
que leite – ele sorria e dizia que me amava antes de levantar para escovar os
dentes e ir para mais um dia de trabalho.
Depois de sua partida quem ia era eu, tomava meu banho e ia ao trabalho. Também
chegava antes dele, então fazia o jantar enquanto via televisão me divertindo
com a programação humorística que na verdade só me fazia rir pela constante
falta de humor. Quando nem esperava ele abria a porta, sorria, sempre sorria. É
fácil escutar a sua voz dizendo “Boa noite, meu amor” se eu forçar um pouco a
memória.
Os dias passaram, passaram os meses, os anos.
Os trabalhos cada vez mais cansativos e cobrando mais de nós. Tão
empenhado o meu rapaz, conseguiu um dos melhores cargos da empresa e apesar de
cada vez ter menos tempo estava radiante. Indo por outro caminho também disparei
no mundo dos negócios, só que agora eu tinha a liberdade de trabalhar grande
parte do tempo em casa.
Cada vez me deixavam mais triste as suas partidas, eram tantas viagens de
negócios que ele tinha de fazer, tantas idas e vindas que o nosso simples café
da manhã aonde ele me jurava o amor que sentia passou a ser algo
extraordinário. Nem me lembro a ultima vez que fiz nosso jantar, não sabia mais
a programação da TV. Na época me falaram que tinha uma novela boa, todos
estavam assistindo, mas na verdade eu não sabia nem o nome. Estava tão entretida
com os meus conflitos, tão obcecada por ter de volta o que éramos antes que
nada mais me passava pela cabeça.
Conversei com ele. Tão grande mas comigo parecia uma criança agarrada à saia da
mãe nas conversas sérias. Enquanto dizia que me amava eu retribuía a jura
tentando explicar que o problema não era o amor, era como estávamos levando -
ou deixando de levar - a nossa vida à dois. Ele prometeu ficar mais, não ir e
vir como se não tivesse alguém esperando. Eu acreditei, acreditei sim, até que
ele foi uma, duas... quatro vezes em menos de um mês. Presentes não
faltavam, telefonemas também não. Mas preferia a vida sacrificada que levávamos
antes.
Lá ia ele mais uma vez, chorei quieta. Ele pareceu sentir também, chorou
enquanto dizia que voltava logo e que também sentia muito por tudo isso. Depois
do beijo de despedida ele foi. Despedi-me dele, da TV que não via mais, da
cozinha que há muito não precisava habitar diariamente e da casa aonde tive e
perdi meu grande amor. A aliança deixei na mesa em cima da carta que escrevi
dizendo que estava cansada de despedidas, e esse foi o último adeus que tive de
dar.
Camila Oaquim