22 abril 2013

Contínua


Ah, desvia que eu me enrosco
qual foi, qual é, minha menina!?
Padeço e tu esquivas...
eu tropeço, fazes graça.
Cai de rir da minha desgraça.

Ah, eu não quero mais.
Já me acostumei em ser assim,
ver-te enroscar a outros
meninos, rapazes, moços
fazendo o esboço da cicatriz em mim.

Se achas graça, se fazes piada
enquanto esqueço os olhos em ti,
hei de fazer o que, meu bem?
Rio em lágrimas, chove... chove...
inundando cada detalhe teu aqui.

Mordes que eu assopro,
Assopras que me cubro de vontade
de satisfazer essa vaidade
tão distante do teu negado sim...
sim, corres por fora e por dentro de mim.

Corres por dentro e por fora de mim... contínua.

Camila Oaquim

20 abril 2013

Breve desabafo do impossível


Quis te olhar de perto, faltaram-me pernas.
Quis dizer a ti mil coisas, esvaíram-se as palavras.
Quis abrir para ti meu coração, trancou-se em chaves.
Mas será que já não percebias que lhe amava?

Cuidaria de tuas pétalas, meu bem.
Regaria tua manhã com mil sorrisos.
Daria a ti tanta atenção quanto preciso.
Não te esquecerias em uma página de livro.

Ainda é cedo, amor
E já invades meu peito assim...
Será que seria muito cedo também
Para te achares em mim?

Camila Oaquim

10 novembro 2012

De volta à felicidade ou de volta ao erro?

       Então o tempo passa, algumas coisas voltam pro lugar e outras se encaixam de uma nova maneira que lhe faça sentir tão confortável quanto antigamente. Se sentir em casa de novo depois de um longo e cansativo dia, é essa a sensação. Mas poucos percebem que nossa casa é o lugar de onde não partimos, apenas saímos. Não, não há nada de ruim nisso, apenas se sentir de volta a casa é algo muito subjetivo. Apesar de sentir alívio e felicidade, em certas situações essa sensação pode querer dizer que estamos andando em círculos, sempre e sempre voltando ao mesmo lugar. 
       Devemos estar sempre dois passos à frente, ser donos de nós mesmos, ser certos até mesmo na escolha errada. Devemos muito e o tempo.. bem, o tempo nos cobra muito. Temo às vezes, muitas vezes. Talvez pelos meus sentimentos à flor da pele, pelos medos, mágoas e dúvidas. Talvez pelos mesmos sentimentos tentando me fazer acreditar nos mesmos romances batidos de finais felizes.
       Sei, sei que sou dessas que constroem castelos belos de areia impulsivamente e depois por raiva do vento que ainda nem apareceu chuta e faz de tudo nada mais do que um bolo de areia. Cada um tem a sua maneira torta de voltar pra casa, de se sentir confortável ou com medo de se sentir assim, de deixar o tempo passar. Só queria conseguir sentir mais uma vez a sensação de estar chegando em casa sem me julgar por estar andando em círculos.

28 outubro 2012

Bem, obrigada!

E então percebemos que a felicidade nada mais é do que o prazer de remendar tudo o que a tristeza fez virar trapo. Felicidade é vestir a roupa dada como perdida e perceber que nada lhe cairia melhor.

Camila Oaquim

18 outubro 2012

O Adeus


          Enfim juntos. Compramos nossa casa, trocamos alianças e passamos a dividir a mesma cama durante todas as noites. Acordávamos bem cedinho, ele mais do que eu. Enquanto já estava acordado tomando banho eu levantava, fazia nosso café da manhã e entre os mil beijos de bom dia que ele me dava e o café com leite que fazia para ele do jeito que preferia – mais café que leite – ele sorria e dizia que me amava antes de levantar para escovar os dentes e ir para mais um dia de trabalho.
          Depois de sua partida quem ia era eu, tomava meu banho e ia ao trabalho. Também chegava antes dele, então fazia o jantar enquanto via televisão me divertindo com a programação humorística que na verdade só me fazia rir pela constante falta de humor. Quando nem esperava ele abria a porta, sorria, sempre sorria. É fácil escutar a sua voz dizendo “Boa noite, meu amor” se eu forçar um pouco a memória.
          Os dias passaram, passaram os meses, os anos.  Os trabalhos cada vez mais cansativos e cobrando mais de nós. Tão empenhado o meu rapaz, conseguiu um dos melhores cargos da empresa e apesar de cada vez ter menos tempo estava radiante. Indo por outro caminho também disparei no mundo dos negócios, só que agora eu tinha a liberdade de trabalhar grande parte do tempo em casa.
          Cada vez me deixavam mais triste as suas partidas, eram tantas viagens de negócios que ele tinha de fazer, tantas idas e vindas que o nosso simples café da manhã aonde ele me jurava o amor que sentia passou a ser algo extraordinário. Nem me lembro a ultima vez que fiz nosso jantar, não sabia mais a programação da TV. Na época me falaram que tinha uma novela boa, todos estavam assistindo, mas na verdade eu não sabia nem o nome. Estava tão entretida com os meus conflitos, tão obcecada por ter de volta o que éramos antes que nada mais me passava pela cabeça.
        Conversei com ele. Tão grande mas comigo parecia uma criança agarrada à saia da mãe nas conversas sérias. Enquanto dizia que me amava eu retribuía a jura tentando explicar que o problema não era o amor, era como estávamos levando - ou deixando de levar - a nossa vida à dois. Ele prometeu ficar mais, não ir e vir como se não tivesse alguém esperando. Eu acreditei, acreditei sim, até que ele foi uma, duas... quatro vezes em menos de um mês. Presentes não faltavam, telefonemas também não. Mas preferia a vida sacrificada que levávamos antes.
         Lá ia ele mais uma vez, chorei quieta. Ele pareceu sentir também, chorou enquanto dizia que voltava logo e que também sentia muito por tudo isso. Depois do beijo de despedida ele foi. Despedi-me dele, da TV que não via mais, da cozinha que há muito não precisava habitar diariamente e da casa aonde tive e perdi meu grande amor. A aliança deixei na mesa em cima da carta que escrevi dizendo que estava cansada de despedidas, e esse foi o último adeus que tive de dar.

Camila Oaquim